quarta-feira, janeiro 17, 2007

A passagem

Apesar de poucas vezes a ter vivido, acredito que a sensação seja uma constante. Arrastar. É a palavra que me salta nos dedos.
Mudar de emprego implica viver aqueles últimos dias de "chove-não-molha". A cabeça já vai longe, o corpo não quer estar aqui e o dia-a-dia é atravessado no sacrifício das 8h com a interminável "passagem de pasta".
Por estes lados isso é algo normal. Quem sai dedica as últimas semanas a ensinar quem entra. Para mim é um esforço maior do que atravessar o Tejo a nado desviando-me dos cacilheiros.
É difícil arranjar pessoas da área neste momento (eu bem liguei para Portugal...) e isso alargou o prazo inicialmente estabelecido para explicar tudo a quem me substituisse. No meio de algumas peripécias apareceu a minha nova colega Mexicana. O sangue latino mantém-se portanto.
O mês de janeiro destina-se a este "encher de chouriços" e só em Fevereiro começo a minha nova etapa. A solo e mais importante, a 10 min de casa.
Ainda assim, reuni-me esta semana com o meu novo chefe e o novo "cliente". Não me habituo a esta palavra. Cheira-me a tudo menos trabalho...adiante.
No elevador já dentro do prédio do cliente perguntei: "Qual o objectivo da reunião? Gosto sempre de ter os últimos 30 seg para me preparar...".
Ele respondeu: "Querem conhecer-te e discutir detalhes".
Mais vago só se naqueles 10 seg de elevador tivéssemos o seguinte diálogo:
"Olha lá...e a reunião é para quê?"
"Falar."
"Ahnn...e sobre o quê?"
"Coisas."
"Ahnn."
De qualquer forma imaginei que os meus "novos colegas" quisessem discutir pormenores técnicos e dar-me um primeiro "cheirinho" da minha parte na obra.
Enganei-me. Mal lá cheguei conheci a minha nova chefe de projecto, que do alto dos seus 2 metros segurava o meu CV. Estava portanto na última entrevista. Isso de já sermos colegas ainda estava por decidir.
Estava descontraído demais e fora apanhado de surpresa. Não tinha violino, reco-reco ou chinquilho, tudo elementos essenciais para uma entrevista de emprego. Num último esforço e entre 4 gotas de suor tirei do bolso a gaita de beiços que me acompanha sempre. Ecoando nas paredes uma banda sonora digna de Clint Eastwood (dos tempos de "cow-boy" no "saloon") contei como limpara cada pedra da muralha da China com uma escova de dentes. Vi sorrisos e por isso, luz.
Passada que estava esta fase, começámos a entrar na discussão técnica e foi a minha vez de fazer perguntas. Quando percebi que o projecto já estava atrasado questionei se seria necessário trabalhar fora de horas ao que a minha nova chefinha respondeu:
"Nós somos uma empresa típicamente sueca. Trabalhamos as 40h e mais nada. Temos filhos e família. "
"E se não conseguir entregar o projecto a tempo?", perguntei.
"Bom, algo se arranjará, mas não à custa da nossa vida pessoal."
Eu não sei se é isto que se pretende numa economia competitiva e sem fronteiras. Não sei se trabalhar menos horas mas fazê-lo de forma produtiva é o mais correcto ou se o segredo de vencer no mercado é mesmo trabalhar mais horas e sempre de forma produtiva (atenção que trabalhar 10h e passar 6 delas na máquina de café ou a ver ppoints não conta...).
Sei é que ver a preocupação com o bem estar pessoal (de cada colaborador) à frente de tudo o resto me fez sentir bem. Isso eu sei.

8 comentários:

dona do "stander" disse...

Realmente... esse cometário da chefe é reconfortante.
Será exemplar único??
:)

Bjs

Florença disse...

Quando mudas?

tiago disse...

dia 5 de Fev :)

Rosa disse...

E eu, longe da banda sonora digna do Clint Eastwood, só me ocorre o Jorge Palma: "Ai, Portugal, Portugal, de que é que tu estás à espera?"...

Sandrinha disse...

"A cabeça já vai longe, o corpo não quer estar aqui e o dia-a-dia é atravessado no sacrifício das 8h com a interminável "passagem de pasta"."

... estamos a viver exactamente a mesma coisa!

O meu dia é dia 04/02!

Anónimo disse...

Pois é no nosso "TUGAL" a preocupação dos chefes é a mesma...
Parabéns pela mudança de País PUTO!!!!!
Beijos Sofia

nana disse...

tão bom, novos chefes com ideias dessas...

good luck!

Anónimo disse...

"Cuidado, isso traz àgua no bico...até na Suécia" Isto é o q diria um tuga que n acredita que isso existe e pior, que FUNCIONA !!!
Podes até ter q pagar caro cada minuto das 8h que tiveres q fazer aí mas só a certeza de q n passam das 8h, é excelente.
Muito boa decisão a tua saída de Portugal.Parabéns.