sexta-feira, abril 23, 2010

Água quente no ombro esquerdo


Como me aborreco facilmente, gosto de estabelecer metas e objectivos. Fico mais entretido e sempre que alcanco um deles tenho a sensacão que estou a viver. Não devo ser o gajo mais original do mundo, eu sei.
Mas, o que realmente me enche as medidas é definir um objectivo cuja realizacão é impossível. Isso sim, já me deixa bem mais entretido.
Esquecamos pois o nome "objectivo" e utilizemos "sonho". Normalmente, o sonho aparece durante o banho matinal. Olhos fechados, água quente nos ombros e a imaginacão comeca a voar. Na TAP, que tal como eu a minha imaginacão não gosta de alturas.
De há uns anos para cá o sonho repete-se. Tem sempre a forma de uma mochila velha a olhar para aquele enorme painel com todos os voos que partem de Frankfurt. Escolho um e a coisa comeca.
Desde que vim para a Suécia que penso nisto. Dar uma volta ao mundo. Imagino que seja esta realidade sueca onde, em determinado momento da vida, muitos deles pegam numa mochila e vão "por aí", tipo Santana Lopes.
Fazem-no com o subsidio de estudante que o estado paga (é por isso que normalmente não se vê um português estudante nestas andancas...) e numa idade que, segundo o meu BI, aconteceu há 10 anos atrás.
Este é o dilema. O português comum estuda financiado pelos pais e quando comeca a ganhar dinheiro, passa a ter 1 mês disponível por ano. Ou seja, primeiro não há dinheiro e depois não há tempo. 6 meses a fazer o caminho do Che ou a cacar leões com Masais não encaixam de forma alguma.
Esta não é de todo a realidade sueca. Sorte a deles que vivem a experiência e na altura certa.
De vez em quando leio sobre portugueses que se aventuram nestas coisas. Não são muitos, mas trazem histórias engracadas. Lembro-me de um que tentou ir até Pequim num 2cv (acho que durante os JOs) e outro que rodou 14 meses pelo mundo e foi escrevendo num blogue e para um jornal regional (de Alcochete se não me engano). Ambos os casos apareceram no Expresso. Leio sempre com aquele misto de alegria (afinal é possível!!) e inveja. Queria lá estar.
Há pouco tempo um amigo desafiou-me para uma travessia do continente americano. Com início na "grande macã" e o fim algures na Amazónia, a comer mandioca com os índios.
Nada que não gostasse de fazer, digamos...já!!
Mas, se este tipo de aventura já é complicada de encaixar numa qualquer actividade profissional (se bem que até há bem pouco tempo a lei sueca garantia um ano de licenca sem vencimento a qualquer trabalhador...sabem-na toda estes camaradas!), passou a ser impossível desde 23 de Marco de 2009. Nunca conseguiria estar tanto tempo longe do Diogo. Nem quero.
Mas isso estabelece um novo objectivo. O de esperar por ele.
Admitindo que um dia ele terá esse interesse ou pelo menos gosto em acompanhar-me, esperarei calmamente pelo momento em que ele consiga fisicamente alinhar na aventura e eu ainda tenha a capacidade de carregar a mochila. Pelo sim pelo não vou evitando o queijo amanteigado e o pão branco. Há que aguentar mais uma década abaixo dos 100kg.
Há duas formas de viver esta aventura. Com um par de cuecas na mochila e a trabalhar em cada poiso por comida, ou, com a mesma mochila mas cheia de dinheiro. Se por esta altura do campeonato já não me apetece lavar pratos, daqui a uns anos largos, muito menos. É comecar a forrar o colchão portanto. Há tempo.
Depois, e se ele quiser, decidiremos em qual dos outros quatro continentes comecar. A partir daí, é deixar rolar aos sabor do vento.
Mais duche, menos duche, acontecerá.