terça-feira, fevereiro 20, 2007

O Oliveira


Quando eu nasci o tempo da ditadura já tinha passado. O do PREC também. Nunca senti na pele qualquer abalo social descrito na nossa história recente.
Todos os relatos chegaram pela boca de quem cá andava antes de mim.
Vem isto a propósito daquele concurso de "O maior português de toda a galáxia" que a RTP está a promover. Confesso que não sei o actual estado do mesmo e nunca lhe liguei muito. É uma consulta popular. Vale o que vale. Fiquei um pouco estupefacto quando vi que um miúdo qualquer dos "morangos com açucar", essa obra-prima nacional, estava entre os 100+, mas lembrei-me de imediato que isto aconteceu no mesmo sítio onde o "Big Show Sic" do Baião foi líder de audiências durante anos. Visto assim é mais fácil de entender.
No entanto, fico um pouco mais pensativo com a consulta popular quando constato que Salazar está entre os 10+. Acho isto verdadeiramente fantástico. Se o sistema de votos reflecte a preferência do povo e se o número de votantes for considerável, então parece-me que temos aqui um caso de estudo.
Como poderá tanta gente viver em Democracia e admirar Salazar?
Tento colocar-me numa dessas cabeças e perceber a razão do saudosimo. Tirando aquelas famílias que na metrópole ou nas colónias viviam com os benefícios do estado e hoje sentem falta dos criados e demais regalias, não vejo como pode um povo sentir saudades de um ditador.
Há uns iluminados que defendem de boca cheia que Salazar nos "safou" da II Guerra Mundial. Ora isso é mais uma daquelas lendas que se vão construíndo nas páginas rosa da nossa História. É um pouco como a época dos descobrimentos que todos aprendemos na escola aos 12 anos. As descobertas marítimas são heróicamente descritas. As trocas comerciais, as matérias primas e o cristianismo. Tudo ilustrado com fotografias dos indígenas a sorrir. Mais tarde, alguns percebem que as trocas comerciais são no fundo exploração e escravatura e que o cristianismo foi o violar, arrasar e assassinar tribos inteiras de indígenas.
Com o "safar" da II Guerra Mundial acontece algo parecido. Salazar não evitou nada. Franco sim.
Na primeira metade da II GG, Franco, claramente favorável ao Eixo (apesar do acordo de não-agressão com Portugal e do apoio de Salazar na guerra civil) pensou entrar no conflito e responder à falange espanhola que defendia a anexação de Portugal e o controlo do Atlântico a partir da Peninsula Ibérica. Tardou nessa decisão e com o virar dos acontecimentos a favor dos Aliados manteve-se definitivamente neutro. Para a nossa posição neutra na II GG terão contribuído mais as asneiras de Mussolini na Grécia (que obrigou Hitler a adiar a invasão da USSR para um época de inverno onde se viria a inverter o rumo desta ) do que a "astúcia" de Salazar.
Ainda assim, durante este período, Portugal "vendeu" as Lajes aos Aliados e armas aos alemães. Foi dos poucos países europeus que conseguiu fazer dinheiro durante a guerra, sem perder vidas ou danificar estruturas. No fim da década de 40 tínhamos uma situação que nos permitiria dar um salto em frente. O que fez Salazar? Iniciou este crónico atraso de décadas que agora ostentamos com orgulho. Enquanto os outros países se reconstruíram, libertaram as colónias e criaram riqueza, Salazar proclamou o "orgulhosamente sós" e levou o país para a ruína num política colonionalista sem sentido nem razão. Perdemos vidas, muito dinheiro e deixámos as nossas partes do "Império" em África entre os países mais pobres do mundo. É esse o nosso legado. Antes disto, já havia destruído a assembleia da I República e criado uma ditadura de partido único (o Estado Novo). Não havia liberdade de escrita ou pensamento. As eleições eram uma fachada onde até os mortos votavam. Criou as mais terríveis prisões. Torturou e assassinou todos os que manifestaram opinões ou visões diferentes da sua.
O que importa que fosse poupado, ou que não gastasse dinheiro do Estado em proveito próprio ou que passasse todas as férias no forte de Caxias? É ele o principal culpado pelo nosso atraso e por décadas de tortura e morte.
Como pode um homem destes ser lembrado por um povo?
Maldita cadeira que não se partiu mais cedo!

4 comentários:

Florença disse...

Tb partilho a tua estupefacção :/ Antes o gajo dos morangos com açucar.

Ana disse...

Pois vou deixar-te aqui uma versalhada sobre o dito O. que o meu pai me contava :
Não foi só Nossa Senhora que sendo Santa pariu.Lá para os lados de Tondela , outra Santa como ela , a Santa Comba Dão , deu à luz de uma gruta o maior filho da puta que governou a nação.

marília disse...

Ana, o teu pai era um génio!! Brilhante :)

S. disse...

Acredito que a confluência de votos resulte de um misto de saudosismo pascoaesiano e de espírito do "contra", ambos bem portugueses. Acredito ainda que os votantes efectivos não viveram os efeitos reais do regime ditatorial, que, como dizes, surge, assim, ficcionalizado. O fenómeno é desagradável, mas, todavia, expectável.