sexta-feira, fevereiro 16, 2007

O Mehari

Nunca gostei de transportes públicos. Cheiros, vícios, hábitos. Tudo em dose extra.
Hoje em dia sou fã. Não há fila, ninguém empurra, há muito espaço e permitem-me observar uma infinidade de gente esquisita. Gosto de gente esquisita. Um amigo meu dizia-me várias vezes: "És tão esquisito!" ao que eu respondia: "Esquisito és tu! E ainda por cima amarelo!". Ele respondia e iniciávamos um ciclo infinito de argumentos. Ele nunca percebeu o infinito. Eu também não. Sabia que elevado a -1 e multiplicado por "a" dava 0. Pouco mais. Ele nem isso. Entretando fizémos 12 anos e parámos de discutir. O infinito continuou igual para ambos.
Sentado no banco em frente olhava para ela. Cabelo e olhos bem carregados de Dyrup preto. Roupa escura, furos por todo o lado e tatuagem dos "Evanescense". Tudo muito bem. Modas são modas e eu cheguei a pensar que fazer aquela cena dos dedos do Vanilla Ice era "cool". Malta lá da rua achava que a t-shirt "Bad" do M. Jackson é que era, mas a luva de brilhantes nunca me convenceu.
Parei nos lábios. O inferior para ser mais preciso. Não era belo. Não era vermelho. Não dava a mínima vontade de olhar. É como passar num acidente: sabemos que nada muda, sabemos que podemos ver alguém preso por fita-cola mas não conseguimos deixar de olhar. Há também o bónus de encravar o trânsito e isso para quem descende de Viriato tem um sabor especial. Sempre gostei do Viriato.
O Viriato, segundo reza a lenda arreou forte e feio em tudo o que era guarnição romana que queria ir passar férias lá para a aldeia dele na S. da Estrela. Na altura ainda não havia tradição no Ski mas o queijinho já era um mimo. Um Astérix em versão lusa que César apenas dobrou oferecendo sestércios e uma quadriga com A/C a alguns comandantes da confiança de Viriato. Foi a primeira obra da corrupção no território que viria a ser Portugal. Gostei dum texto do Sousa Tavares sobre a corrupção. Segundo ele, sem ela, estaríamos ao nível da Finlândia. Trocar o sol pelo frio e o meu nome por Jukka Rakkinen não sei se me agradava, mas o galo de barcelos pela Nokia já me parece bom negócio.
Mas olhei. Olhei e reparei atentamente naquele lábio inferior. Um "piercing" em forma de anel cobria toda a zona central e eu, fazendo aquela cara de quem está a comer polpa de tomate bem quentinha, não deixava de olhar. O meu pai nunca me perguntou porque ia à casa de banho com a boca cheia sempre que comíamos "cannelloni" bem regados de polpa de tomate. Desenvolvi bons músculos nas bochechas à custa disso. Discutia a campanha presidencial da Lurdes Pintassilgo, sem cuspir ninguém de vermelho e sem dar a entender que me estava a queimar. Lembro-me dessa campanha. Coligação Democrática Unitária soava-me bem. Também gostava daquele senhor simpático das bochechas, mas a minha vizinha de baixo votava na Lurdes e tinha um Mehari. Eu não podia votar mas podia andar no Mehari a agitar bandeiras. Gostava do anúncio "Mehari...Citroen....com capota, sem capota, ele é jipe, é camião...Mehari...Citroen".
Pensava eu o que levaria alguém a meter um pouco de chapa nos lábios? Ela já era desagradável ao olhar, para quê piorar um cenário de horror? Pensei na comida. Como tiraria os restos de massa presos entre o lábio e a chapa? Haverá palito versão "macaco-hidráulico" que a safe? O palito está entre os 15 objectos mais detestáveis do mundo. O mundo não seria um lugar melhor se, em vez daquele pente castanho escuro/claro que usamos no bolso de trás, carregássemos uma bela escova de dentes? Pensem nisso.
Uma vez ofereci um paliteiro ao meu avô. Era grande e metálico. Talvez um pouco pesado para usar no bolso como ele fazia com o palito, mas com uma mola muito gira que fazia disparar o palito quase directo aos caninos. No lugar de "o mais destestável" está o palito que vem com o canivete suiço. Aí a limpeza é apenas uma ilusão. O resto de bife passa dos dentes para um pedaço de plástico que por sua vez é limpo com a pressão do indicador contra o polegar. Estes são de imediato passados nas calças. Os germes ficam bem arrumadinhos dentro do canivete, os dedos com gordura e as calças com a bela mancha. Escapa-me a parte da limpeza. O canivete suiço é uma invenção do Macgyver. É o único gajo no mundo que nos consegue convencer que blusões de aviador, ténis com a língua de fora e uma tesoura num canivete têm de facto alguma utilidade.
Depois veio o beijo. Como conseguiria ela beijar alguém? Apesar de tudo o "piercing" ainda era o mais bonito daquele quadro, mas admitindo um corajoso e aventureiro, qual seria a sensação? Fria talvez.
E se a placa tiver algumas rebarbas e o namorado não for da Transilvânia? O que fazer com o sangue?
Enchidos? Não me parece.
Decido levantei-me para a questionar. Parei. Olhei em volta e desisti. Não gosto que esperem por mim e a minha paragem olhava-me pela janela.

4 comentários:

Florença disse...

Sorte a tua que não tens nenhum iman no bolso :P

Diário de um Anjo disse...

hehehehe...modas e modas...há coisas que não comprendo:-)

fogacho disse...

e nas intimidades? quando pregam aquilo nas intimidades?! Iarque

Sandrinha disse...

Juro que tentei ler o teu escrito de um só fôlego... mas não consegui!