terça-feira, novembro 14, 2006

A recta

Se há coisa que me enerva é a "recta". Segmentos, semi, qualquer tipo de rectas.
Para mim um caderno de linhas é uma verdadeira pauta musical. A mesma frase desliza por cima e por baixo da linha como um Fá-Sol-Lá-Si-Dó, mas nunca em cima. Isso não.
Desenhar uma recta também é como trepar uma parede de "limos". Há sempre aquele momento em que o braco falha e aparece aquele "pico" na linha.
Caminhar em linha recta...bom, isso é que é uma tarefa que me põe à prova. Normalmente, quando a pessoa ao meu lado já está a raspar na tinta de areia da parede, percebo que não consigo caminhar paralelo ao passeio.
Depois há as paragens de autocarros. Estão sempre numa recta, nunca numa curva.
No meus tempos da secundária Zeca Afonso, costumava apanhar o autocarro no fim de uma recta enorme (sim Ricardo, na paragem do CorrerD'Água!).
Mal saía da casa da minha mãe já estava a ver a paragem e ainda faltava 1Km para lá chegar. Escusado será dizer que praticava diariamente a modalidade olímpica "corrida-pó-autocarro", na especialidade maratona.
É que fazer aquele "sprint" da moda e em 3 passos estar no autocarro, ainda vá...agora gramar essa pastilha como eu fazia, era como dar 2 voltas ao Jamor com 2 fardos de palha às costas (sim, não me digam que vocês não tinham aquelas mochilas de 1x1 metro bem atestadas de livrinhos para todas as disciplinas??). E na década de 90 não existia Sanex, o que deve ser encarado como muito mais do que um detalhe!
Fiquei a detestar ainda mais as rectas.
Esta manhã lembrei-me disto novamente. O frio congelava-me as rótulas e eu deslocava-me (numa recta) naquele passo caracol que me define. Ao fundo aparece o eléctrico e a história repete-se. "Merda" diz o meu íntimo, mas já era tarde. A mensagem partira 0,1 seg antes do cérebro para os joelhos que rapidamente comecaram a dobrar 4 vezes mais depressa. Peito para fora, boca em posicão de puf,puf, cacos de gelo a saltarem pela friccão das pernas e aí estava eu uma vez mais a mostrar a minha versatilidade no atletismo, desta vez nos jogos olímpicos de inverno, especialidade meio-fundo.
Qual Carl Lewis entrei no eléctrico disparado como uma seta e depois de fazer ricochete numa parede encostei-me num banco. "Puf,puf,puf...foi apertado...puf,puf,puf...irra....puf,puf,puf....mas consegui....". Encostei as costas e relaxei. Quando esperava uma curva para a esquerda apareceu uma para a direita: "Merda!", repetiu o meu ser. "Eléctrico errado!!", foi a mensagem que disparou nas minhas entranhas. Deixei-me de mariquices e parti para uma nova especialidade, o decatlo. Depois dos 200m e do meio fundo, chegavam os 3000 barreiras até à estacão de comboios. Pé no chão, computador às costas e cachecol ao vento como uma bandeira americana num filme do Clint Eastwood. A cada passada um novo salto pelos canteiros. A respiracão ofegante e o fumo da boca anunciar a passagem, tal qual "cavalo de ferro" no antigo Far-West.
Uns bons minutos depois a chegada à estacão com as solas em brasa. Ainda verificava os estragos no sanex quando um bárbaro anuncia nas colunas que o meu comboio estava a partir. Nada me honra mais do que uma boa olímpiada afinal era o espírito de Pierre de Coubertain que estava em causa.
Lancei-me na modalidade rainha e fiz os 100m em pouco mais de 10seg (o Obikwelu tem um tempo melhor mas corre de pijama e sem o pc às costas).
Uma vez mais a parede foi acolhedora e "reflectiu-me" para uma cadeira, ao lado da qual se sentava o camarada boliviano. Cheiroso, descansado e de olhos fechados perguntou-me: "Perfume novo?"



PS - sem "C cedilha" que este teclado não tem essa letra e não me apeteceu fazer "copy paste"

14 comentários:

Anónimo disse...

Eu ando sempre com o sanex na mala por causa desses e doutros percalços que nos forçam à sudorese abundante. De vez em quando venho de bicla para o trabalho ;)

Tiago Franco disse...

A verdade é que o meu suor é sagrado. Nunca cheira :) (verdade!!)

joaninha disse...

até fiquei cansada só de ler... mas uma coisa também muito gira é o comboio sair à sexta feira a noite com 20 min de atraso da estação inicial, não termos a certeza que estamos no comboio certo, quase deixar passar a estação de saída e perdermos a ligação para a terreola! :S

beijinhos

Enfim... disse...

o portugues tem que se lhe diga lol.Bjs

Et disse...

O verdadeiro corre-corre!
Eu por acaso gostava bastante de rectas, nos tempos de escola, já que a minha especialidade era corrida estafeta :), mas isso de ter de correr para o autocarro, isso não gostava nada!!

catarina disse...

lolololololol

mas ouve, quem é que entra no eléctrico errado?:)

gajos do sul... pfff....


:D

Tiago Franco disse...

Catarina:
para errar, é necessário entrar num, o que nos remete para a questão:
-tirando aquela vez em que foste na excursão da Resende aos pastéis de belém, alguma vez viste um eléctrico?
:))

Rui Silva disse...

Por acaso nos meus tempos de escola não dava para correr para o autocarro. Com a Av. das Descobertas pelo caminho, uma corrida inconsequente podia causar um atropelamento mortal. Uma colega morreu ali, a atravessar para o autocarro.
Relativamente à Catarina nunca ter visto um eléctrico, ela é do Porto. E no Porto eles têm várias linhas de eléctrico. Mas fazem confusão e chamam-lhe metro...

Sandrinha disse...

O pior era correr desalmadamente e não conseguir apanhar a porcaria do autocarro!
Isso é que era muito mau!
Mas tu dominas!!
E Viva o Sanex!

catarina disse...

então vamos lá degarinho....
o Porto tem eléctricos, ah? lindos, velhinhos mas restaurados, cheios de nostalgia, fazem alguns percursos ali junto à foz, coisa mais para turista... de resto, para transportar as pessoas a sério, temos coisas mais modernas, tipo autocarro e metro de SUPERFÍCIE!! (topas, Rui? lá porque não somos toupeiras... pfff...:))

de resto, Tiago, fui muitas vezes à capital, mas nunca fui na excursão "ao Resende"... bens amais eu?
:D

PS:lá no Porto, até temos dois autocarros movidos inteiramente a hidrogénio. limpinhos. ah, ah? temos a frota de autocarros mais moderna da europa. tomem e embrulhem!:)

jocaferro disse...

Catarina, não se liga. São muito underground.
Não sei como chamam aquela coisa que vai parar junto ao Alvalade XXI.
Não é um eléctrico nem um comboio, mas anda à superfície...
ah! é metro!

Logo num dia em que as tais linhas de eléctrico foram distinguidas com um importante prémio de arquitectura. Para os underground - não foi o Valmor, não senhor...

Abram os olhos, morcões. Ou serão toupeiras? ;-)

Rui Silva disse...

Catarina, eu diria que são os vossos metros de superficie são iguaizinhos, só muda a cor, ao nosso 15 que liga Algés ao Terreiro do Paço. Muda a cor e muda o nome, mas isso são pormenores.
Jocaferro, o metro ao pé da casa de banho passa num viaduto porque debaixo da terra podia causar complicações com os esgotos deles. De resto são meia dúzia de metros mal medidos.

... disse...

Que delirio de texto...
Abraço

jocaferro disse...

rui silva:
essa dos esgotos- ;-)))))