terça-feira, fevereiro 24, 2009

O ponto desfocado

A Courrier deste mês traz um cartoon de Madoff a falar com outro recluso. Diz ele: "Dá-me um cigarro e devolvo-te um maco". A lógica da especulacão bolsista que nos deixou na maior crise mundial dos últimos 70 anos.
Há uns anos atrás, um amigo economista perguntou-me se estaria interessado em investir na bolsa. Ele sabia que a empresa B ia comprar a empresa A e assim sendo, as accões de A subiriam bastante.
Eu, que sou um leigo na matéria perguntei: "Mas sobem porquê?"
Ele explicou a parte técnica: "Sobem porque sobem. É um fenómeno económico".
Apesar de não ser a minha horta confesso que fiquei desconfiado com tamanho fenómeno.
"Mas como é que se multiplica o dinheiro?", insisti.
"É assim. Um fenómemo. Está nos livros."
"Mas se é assim tão maravilhoso porque não deixam todos de trabalhar e vão antes multiplicar salários para a bolsa? De onde vem esse dinheiro multiplicado? Onde é que se gera a riqueza?"
Acabei por não investir nada. Todo aquele milagre da multiplicacão me pareceu muito artificial.
Escusado será dizer que dinheiro no bolso também não abundava, pelo que preferi não experimentar.
E assim fiquei até hoje.
Leigo e sem multiplicacão de pães.
Prova-se por A+B (gosto desta expressão...) que foi essa ganância sem limites, suportada numa multiplicacão artificial de dinheiro que nos deixou neste cenário de falência diária. Foi o capitalismo absolutamente selvagem que nos trouxe aqui.
Agora pensemos na solucão.
A classe média (a nível mundial) vai-se reduzindo à medida que o desemprego aumenta. Os que ficam com emprego continuam a pagar impostos e esse é o único dinheiro (juntamente com o aumento da dívida externa) que cada país terá para investir no combate contra o desemprego. O investimento público (como se está a fazer em Portugal) não é a melhor forma, mas é neste momento a única de criar alguns empregos, aumentar o consumo e meter o dinheiro a girar. Claro que essa situacão não é suportável eternamente mas cria durante um período (que se esperea curto) mais emprego, esperando que a retoma seja rápida.
Mas como é que isto é feito?
Com os impostos que todos pagamos.
E agora pergunto. Eu contribui 0% para o problema actual, nunca incentivei qualquer especulacão, nunca fugi a qualquer imposto. No meu bolso nunca entrou nada. Porque tem o mesmo bolso que estar na linha da frente para pagar? Porque tenho que estar preocupado diariamente com a crescente instabilidade de emprego para a qual nada contribuí?
Revoltante.
Como diz um amigo...fico um pouco f***** não é?
É altura de sermos solidários. Compreendo isso. Temos que puxar todos para o mesmo lado. Muito bem.
Espero contudo que no fim deste terramoto nada fique igual e que os reguladores apertem o cerco ao milagre da multiplicacão do oxigénio.
No meio desta merda toda ainda ouco economistas americanos a dizer que o estado ao investir dinheiro para segurar emprego e empresas, se está a transformar num estado socialista (que é como eles chamam aos comunistas) e que o país corre o risco de perder a liberdade.
É de bradar aos céus.
Qual é a solucão génio? Se ninguém compra, vende ou produz, como é que se mete a roda a girar de novo?
Quanto mais leio sobre o assunto mais preocupado fico. Não há sítio do mundo que não esteja a engrossar a fila de desempregados. Ninguém está a salvo desta crise. Quanto mais tempo ela durar maior será a possibilidade de sermos arrastados.
Aqui ao lado, na Noruega, o governo vai avancar com investimento público (nas linhas do comboio) para que o desemprego não ultrapasse os 5%.
Claro que há dias, como o de hoje, em que venho para o trabalho anestesiado pela música certa, com a vista do rio e com um céu azul que insiste em me acordar. Nessa altura a crise é apenas um ponto desfocado na fotografia. Em primeiro plano, com uma cara pintada pela minha imaginacão surge o meu filho.
Só faltam 3 semanas e a minha ansiedade comeca a atingir os níveis de "despacha-te puto!!".
Esqueco-me dos Madoffs deste mundo.
A vida é infinitamente bela.

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