sexta-feira, novembro 30, 2007

Um dia no circo



O poder de concentracão não chegou naquela noite fria de Maio, lá para os lados do teatro S. Luis.
Reconheco-o.
A minha vida seria bem mais simples se por alguma razão eu me conseguisse focar num tema, digamos, durante 5 minutos.
Para comecar. Mais tarde tentaria os 10.
Mas não consigo. Tudo serve para mudar a rota do pensamento.
Para alguém como eu, uma reunião de trabalho é um autêntico maná sociológico.
Entro, abro a agenda e sigo as discussões. Enquanto a coisa é dividida e a palavra roda, sim senhor, mas se alguém se apodera do som por mais do que 5 minutos, os meus ouvidos entram em curto-circuito e comeco a contar as tomadas da sala. Um passatempo tão digno como qualquer outro.
Esta manhã estive umas horas numa sala onde um carequinha falava com uma voz de cana rachada, em tom baixo e num ritmo monocórdico. Não devem existir dois no mundo com esta capacidade vocal.
Ele comecava a falar e eu ouvia: "nhêêêêêêêêêêêmmm" como se fosse um bimotor a hélice. "Nhêêêêêêêêêêêmmm" e quando eu pensava que ele ia parar…."nhêêêêêêêêêêêmmm". Minutos e minutos naquele reco-reco sem respirar.
De cada vez que ele comecava eu contava o tempo de reco-reco sem respirar. Nunca aguentei até ao fim. Este gajo devia ter um cantinho no Guiness de reco-reco humano.
Isto foi o que eu trouxe da reunião. E tenho a sensacão que o tema não era reco-reco.
Aqui há uns dias, uma equipa da V. onde eu estava incluído recebeu uma equipa de alemães para 3 dias de serra presunto.
Eles, os alemães, chegam todos de camisa branca e gravata. O algodão não engana por aqueles lados. Os meus colegas tomam banho. É um dia importante.
Menos para um. Entre nós, há um personagem que não é de protocolos e aparece com uma t-shirt azul cueca com uma gigantesca cabeca de leão (parece o cartaz do circo Chen). Nem na praca de espanha se encontra material daquele. Senta-se, tira as chanatas e comeca a cocar os pés. O cabelo escorre sebo e são apenas 8 da manhã. Os meus 5 minutos de concentracão ainda não terminaram mas já percorro um mundo paralelo.
Estou certo que são os meus olhos. Não há filtro para nada. Tudo o que não interessa é captado e processado.
Intervalo para almoco.
Na sorte dos lugares o Chen calha ao meu lado. Almoco com cheiro a refugado para mim. E não vem do prato.
Comeco a ouvir "tin tin tim tlan tin tim"….procuro um xilofone que não encontro.
Olho para o prato do Chen e vejo um malabarismo fantástico. Ele ajeita a comida entre o garfo e a faca a uma velocidade 3E8 m/s provocando um som bem catita. No fim, também com uma rapidez assinalável, empurra a comida para a faca e mete-a na boca. E isto sem nunca se cortar.
Nunca lhe explicaram que o garfo era aquele dos 3 biquinhos. E fica claro também que o poder de observacão não é o forte do Chen. Bom, mas também para ver como os outros comiam ele teria que levantar a cabeca para mais do que 5 cm do prato e isso já seria um novo processo.
Voltamos para a sala.
O Chen está satisfeito com o almoco.
Encosta-se e enquanto lhe fazem uma pergunta aproveita para limpar o salão.
Já vai na fase da resposta quando tenta atirar o produto da limpeza para a carpete.
Está colado.
Parece que não sai.
Os alemães olham para o Chen enquanto ele sacode o braco e responde à pergunta.
Ahhh…finalmente conseguiu.
O gorilinha jaz agora na carpete.
Os meus 5 minutos da tarde acabaram.

2 comentários:

marília disse...

arre, que nojo...!

Lua dos Açores disse...

Biacccccccccc