sexta-feira, fevereiro 29, 2008
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quinta-feira, fevereiro 28, 2008
O gajo do estetoscópio

quarta-feira, fevereiro 27, 2008
O regadio

No que respeita à escolha de WC sou um pouco esquisito. Exigente, vá lá.
Eu sou daquelas pessoas que quando entra num hotel vai ver se a sanita tem aquele papelinho a dizer "imaculado". Gosto de pensar que antes de mim ninguém lá esteve.
Estou convencido, ou pelos menos vim a debater este assunto comigo mesmo no caminho aqui para o estaminé, que esta dificuldade em aceitar casas de banho públicas vem do facto de ser homem. Ou pelo menos de o meu género me obrigar a usar casas de banho onde outros homens já estiveram.
Um homem, quando usa uma casa de banho pública, despe-se entre outras coisas de preconceitos e regressa ao tempo das cavernas. Há uma luz no cérebro que se desliga e passa agir como se nunca mais lá voltasse. Ora, quando se fala em casas de banho nos locais de trabalho, essa não será certamente a verdade. Ainda assim, cheira-me que a mensagem neste caso será: "Até eu cá voltar já a chinesa limpou isto!".
Aqui há uns tempos, relatava-me um colega a fórmula secreta para matar germes de lavabo. Dizia-me como quem descobrira pólvora: "Entras e limpas tudo com saliva. A baba mata tudo!"
Cuspe? O famoso cuspe?
Não ajudou e passei a ter medidas extremas ao entrar em tais espacos.
No top da lista porque-é-que-eu-devia-ter-uma-casa-de-banho-ambulante está, destacado e com relativo avanco, o homem-chuveiro.
Concluo hoje, que em todos os sítios onde trabalhei existiram sempre representantes do chuveiro humano. Malta, para quem uma pia de 40cm de diâmetro a uma distância de meio-metro, é um alvo impossível de atingir. Isto proporciona, entre outros requintes, que os utilizadores seguintes demolhem um pouco as solas, atacadores e no caso das calcas da moda, um ou outro cm de ganga. Isto sim, faz-me pensar que vale a pena acordar.
Em Portugal e sendo as casas de banho espacos bem grandes, nada a fazer. Havia que arregacar as calcas, tirar os atacadores e aguentar.
Contudo, aqui na Suécia, cada casa de banho é um pequeno T0. Individual e com toda a mobília necessária. Há apartamentos na Póvoa de Sta. Iria mais pequenos.
O que difere a casa de banho para um homem ou para uma mulher, além do óbvio estado do chão, é um bonequinho na porta.
Ora meus amigos, não há bonequinho na porta que consiga combater o clássico olha-para-um-lado-olha-para-outro-e-entra-na-casa-de-banho-limpinha.
Sim, não devia ser assim, mas que culpa tenho eu se as mulheres não têm o efeito chuveiro? Depois é só esperar e sair quando não está ninguém no WC do lado.
Se me disserem "epá, essa não é a casa de banho dos homens!" já está o "sim, mas eu tenho atacadores novos" preparado.
Mulheres que se queixam da crueldade da natureza devem pois repensar os seus actos.
Dores de parto, menstruacão, depilacão com cera?
Chato e tal…mas, perante o flagelo dos atacadores molhados?
...
Afinal a cera até nem dói tanto não é?
Bem me parecia.
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
Old fashion
Hoje, ao reparar na cara de susto que o empregado de balcão fez quando tirei os rolos do bolso, pensei que me tivesse enganado na porta.
Estaria na padaria?
Olhei em volta e vi noivas e bébés espalhados por todo o lado. A não ser que o dono da padaria fosse um califa das arábias, estava de facto numa loja de fotografia.
Disse-me que voltasse lá para o fim da semana. Talvez tivesse que tirar a máquina da arca e limpar-lhe o pó.
Que tal amanhã? Perguntei como quem argumenta no mercado da ribeira.
Amanhã então. Respondeu com um ar aflito.
sábado, fevereiro 23, 2008
E agora com caixa de ritmos
Cantado pela malta que vai aos hotéis entreter os turistas já não me agrada.
Perde alguma originalidade.
Isto para não dizer que fica um pouco com aquele estilo de música de carrinhos de choque.
Mas e o pézinho?
Bate ou não com o sintetizador Modern Talking?
O hit do momento
Enquanto os louros tentavam apanhar os bofes no fim de cada dia, esta malta tinha forca para carregar e pulmão para cantar à chegada a cada acampamento. Certo como o destino, no fim de cada caminhada havia sempre um grupo que se juntava para o fantástico Jambo Bwana. Hit esse que em cada manhã me acompanhava os lábios num clássico jambooo, jamboo bwana lá, lá, lárálálá porque Swahili ainda não está no meu léxico. E isto ainda era coisa para durar uns bons 30 segundos. A partir daí ou cantava ou respirava. Optei sempre pela segunda.
Vergonha é roubar e ser apanhado
Não aqui entenda-se.
Aí, onde o sol castiga mais, como diria o saudoso Paco do sorriso.
Lendo os jornais portugueses, fico com a sensacão que a sociedade lusa se prepara para levantar a voz contra o actual estado do país.
A coisa ficou mais séria quando uma tal SEDES apareceu com um relatório a validar tal descontentamento.
A SEDES, uma associacão com 40 anos de vida pública, colocou governo e oposicão a falarem do mesmo (mas em sentidos opostos).
Fiquei a pensar num novo 25 de Abril.
Depois passei os olhos pelo referido manifesto.
Esperei por um autêntico vendaval no estômago dos portugueses.
Parei no ponto 2, logo no primeiro parágrafo:
"Ao nível político, tem-se acentuado a degradação da confiança dos cidadãos nos representantes partidários, praticamente generalizada a todo o espectro político. "
Sim.
De facto a corrupcão não ajuda a confiar na classe política.
Os jogos de interesse e favores entre empresas dependentes do estado e governantes, apesar do silêncio que se segue a cada notícia, enchem um pouco a cabeca a quem pensa que trabalho honesto e pagamento de impostos são a base de uma sociedade civilizada.
Não era novidade o que lia, mas é sempre bom ver estas chamadas de atencão na sociedade civil.
E quem são estes gajos?
Foi a pergunta que se seguiu.
Ex-ministros daqui, ex-ministros dali, Ferreira do Amaral e....
Espera lá! Ferreira do Amaral?
O artista que negociou um contrato enquanto ministro, para o gerir mais tarde em proveito próprio ?
Assim vale a pena.
Alertar a sociedade civil sim, mas só depois de a escavacar.
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
O regresso da miséria
Do ponto de vista prático e tendo em conta a minha natural inoperância na utilizacão da exclamacão "desta vez não vejo!", assalta a massa que me recheia o crânio a seguinte dúvida repetida em intervalos de 35 segundos: "Quando é que, num gesto de solene bondade, um qualquer Bynia deste recanto a que chamamos mundo se decide a partir um ou até dois, membros inferiores a esse personagem que me faz sofrer e cujo registo de nascimento identifica como Luis Filipe?"
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
Segunda tentativa























Os últimos a largar o osso (depois de portugueses, árabes e alemães), foram os ingleses. Em 1961, quando a Tanzânia conseguiu a sua independência, tinha 120 médicos e maior parte da populacão (90% se não me engano) era analfabeta. 120 médicos para mais de 30 milhões de habitantes.
A pergunta é óbvia: além de abanar o chicote, o que mais fizeram os ingleses por lá? Nos últimos 40 anos, a aposta do país foi essencialmente a educacão. O ensino básico é óbrigatório. A taxa de iletrados reduziu drasticamente mas durante anos o país gastou 30% do que produzia para pagar a dívida externa. Na década de 90 maior parte dessa dívida foi perdoada e desde então os sucessivos governos têm tentado sair da pobreza extrema. Apostaram essencialmente no turismo e mostraram inteligência na forma como o fizeram. Em vez de construirem campos de golfe ou oásis no deserto, limitaram-se a nacionalizar as riquezas do país: os imensos parques naturais. Com isso conseguem atrair turistas para safaris ou caminhadas na montanha.
Isto poderia ser um bom impulso, não fosse a Tanzânia um país africano. A corrupcão existe e é levada à letra. Esse é sem dúvida o grande obstáculo ao desenvolvimento. Não é original, principalmente no continente, mas é um facto.
Nos últimos dias que por lá passámos, um visitante ilustre (W. Bush ) criou um novo garrote para o desenvolvimento do país. 700M de dólares muito festejados pelos locais, que passarão as próximas 3 geracões a pagar uma nova dívida externa.
No terreno, e no que toca ao turista, a experiência foi avassaladora. De contrastes diria. Alegria ao ver um elefante no seu habitat. Alegria ao assistir a um nascer do sol a 5800m de altura. Felicidade ao ver a fauna marítima e o silêncio reconfortante do índico.
Tristeza ao ver uma crianca esfarrapada a estender a mão. Tristeza ao ver condicões de vida. Tristeza ao perceber como se consegue viver no meio de tanta miséria. Peso na consciência ao ver carregadores a levarem os meus 20 Kg montanha acima, de calcões, sem casacos e com ténis calcados no lugar de botas.
A vontade é de andar nu. Para acalmar a consciência e ter a certeza que nada mais temos para dar. Fica sempre aquela ilusão de que podemos mudar o mundo. Mas não podemos. Há uma crianca que naquele dia tem um chocolate, uma camisola. Um carregador que ganha um casaco para a chuva. Outro que fica com umas calcas mais quentes. Mas no geral tudo fica na mesma. Uma miséria que nos faz pensar nos desiquilíbrios do mundo. Ao viajar contribuímos para a economia do país. Ao pagar o orcamento pedido para subir uma montanha (orcamentos bem europeus diga-se), espera-se que a parte de leão vá para o desgracado que alomba montanha acima e que faz o negócio acontecer.
Mas não. Esse fica com 4 dólares por dia. 4 dólares meus amigos, para quem como eu não liga ao euro, significam 500 paus. 500 paus por dia. Costas vergadas e sempre a subir.
Na primeira parte da viagem, o Safari, o que mais me impressionou foi a cratera de Ngorongoro. Há quem lhe chame a oitava maravilha do mundo. Para mim, foi como viver (por dentro) um BBC vida selvagem. Imaginem uma gigantesca cratera onde animais selvagens vivem livremente e onde a lei dominante é a lei da selva. Sobrevive o mais forte. Embora não viva nenhum ser humano na cratera, os Maasai têm permissão para andar por ali com o gado a pastar. Segundo este maasai que aparece aí na foto do post anterior, se os leões não atacarem o gado, eles também não atacam os leões. Se algum leão filar o bofe, lá têm que ir 3 maasai jogar às setas com o leão. Há profissões mais giras, convenhamos.
Antes de tudo comecar perguntei ingenuamente: "Existe a hipótese de não ver animais?"
No fim corei de vergonha. É necessário desviar o carro para não bater neles. Depois de uns dias a brincar ao National Geographic, saltámos para Zanzibar, mais concretamente para a costa Este, em Matemwe.
Zanzibar, um antigo território árabe (depois de um século de domínio português), pertence desde há umas décadas à Tanzânia. Ao contrário do que acontece no continente, aqui, maior parte da populacão é muculmana e a estabilidade é menor, pois o desejo de uma independência total ainda se faz sentir.
Em Matemwe julgo que encontrámos um pedaco do paraíso. Pelo menos na forma como eu o imagino. Areia branca, água quente e clara, corais lindíssimos, uma gastronomia (swahili) de chorar por mais. Podia ter ficado por lá mais tempo. Nadar, ler e ver Nemos ter-me-ia enchido as medidas por mais umas semanas.
Snorkeling, uma mariquice que nunca tinha experimentado também me deixou rendido.
Tubo na boca, barbatanas no pés e cabeca dentro de água. Silêncio, tranquilidade, paz, a profundidade dos corais e o colorido dos peixes que parecem não se importar com a minha presenca. Cereja do dia: saltar do barco em alto mar e nadar no meio de golfinhos. Que dia!
Passados 5 dias de fabuloso descanso regressámos a Moshi e com vista para o Kilimanjaro iniciámos a parte final da nossa viagem.
De 5 possíveis rotas, escolhemos a Machame, mais conhecida como Whiskey (há outra rota denominada coca-cola). A rota escolhida, é das mais difíceis, mas é aquela que permite mais tempo de aclimatizacão (isto escreve-se assim?). O maior problema desta subida era a altura extrema a que nos iríamos sujeitar e por isso ter tempo para que o organismo se habitue a funcionar com menos oxigénio era a chave. Na véspera da subida encontrámos um grupo de portugueses que nos aconselhou a tomar um medicamento (diamox - para combater a "doenca da altitude") desde logo. Nós que pensávamos usar o diamox quando a doenca (vómitos, dores de cabeca, etc) aparecesse, resolvemos seguir o conselho dos patrícios. Cheira-me que foi o que nos safou. Ou pelo menos a mim que tenho dores de cabeca como quem come pastéis de nata.
Seis dias a subir desde os 1800m até aos desejados 5895m. As dores de cabeca apareceram sim, mas nada que nos impedisse de cumprir o objectivo. Até chegar aos 4600m, andámos por floresta tropical, vales imensos, paredes de rocha, planaltos deslumbrantes. Achei especial piada à névoa. Era bastante personalizada. Ora tapava tudo, ora desaparecia e nos deixava ver as neves do kilimanjaro, para 5 minutos depois voltar a tapar tudo. O momento Kodak aparecia quando a névoa deixava! Também achei piada ao contorcionismo necessário para me lavar numa bacia com 20 cm de diâmetro. Lavadinho sim, o suficiente para não colar. Mais não dava...
No fim do 5º dia chegámos ao último acampamento antes da subida ao topo. Dormimos umas horas e comecámos a subida à meia-noite. 8 horas a subir com luzes de mineiro na cabeca. Passo lento como em toda a caminhada. Pole-pole dizem os guias. Devagar, devagarinho. Três passos de gigante e o coracão dispara para a goela. Correr e coisas do género ficam para mais tarde. Sem oxigénio até mastigar cansa.
Apesar do esforço físico desta última semana, estas férias trouxeram-me a paz e a tranquilidade que há muito procurava. Regresso de África com a alma cheia, com energia redobrada, com a noção real do que nos separa, com a certeza de que vivo noutro planeta e com uma imensa vontade de voltar ao continente.

















