
Nunca gostei de transportes públicos.
Digam o que disserem, não há conforto como o do veículo próprio munido de um bom leitor de cd's.
Desde que comecei a usar o comboio entre a cidade onde vivo e aquela onde trabalho, esta opinião sofreu um forte abalo. O comboio em questão liga Gotemburgo (que não é a capital da Suécia, para que conste) a Oslo, passando pelo meu apeadeiro: Trollhättan ( momento cultural do post: cidade da Saab e "Hollywood" local onde se fez
Dogville com a N.Kidman e
Dancer in the dark, com a Bjork).
Os lugares são espaçosos e reclináveis, o comboio silencioso, a máquina de chá/café sempre a jeito e a velocidade ultrapassa em muito os 50Km/h exigidos no alcatrão. É como andar de avião, mas sem asas e em cima de carris. Bom, até porque as alturas não são o meu forte.
Batiam as 6.30h da matina e lá estava eu perto do local de partida do "meu" comboio. À minha frente apenas o lugar. O comboio tinha ficado encalhado num
fjord qualquer.
Batendo os dentes olhei para o placar que anunciava um autocarro de substituição. 80Km para norte, entre curvas e velocidades de 60 Km/h, não era o que tinha pensado para iniciar a semana...mas, vamos a isso.
Segui os outros da minha espécie (uma pessoa vai conhecendo as caras que seguem o mesmo destino) e entrei num autocarro (daqueles tipo expresso) cheio até ao tecto. À minha frente ia o Pepe Mexicano. Na verdade não sei de onde ele vinha e que nome carregava, mas aquele sotaque espanhol, a pele de índio, o cabelo de ouriço e sobretudo a forma como furava a fila, deu-me a entender que não brincava com trenós quando era pequeno. Depois, admitindo que era Mexicano só se podia chamar Pepe.
Adiante...
O Pepe sentou-se ao lado de um sueco (num banco de 2 lugares) e eu sentei-me do outro lado onde estavam dois lugares vazios.
Quando pensava que ia fazer a viagem à larga entra mais uma fornada de gente. De imediato começam a distribuir-se pelos lugares vagos e eu aproveitei para os colocar mentalmente, como se de um jogo de batalha naval se tratatasse, em sítios longe do meu metro quadrado. Estava em grande ritmo e com uma taxa de sucesso de 100% quando avisto a Fricarnes.
A Fricarnes era uma moça robusta e vista de cima parecia um
sombrero (senti que o Pepe olhou para ela com um carinho especial). Numa luta perdida, as roupas tentavam entrincheirar aqueles pedaços de carne que a cada passo no corredor do autocarro atingiam ora os passageiros da esquerda, ora os passageiros da direita. Parecia o Godzilla (o que eu gostava destes desenhos quando era puto!!) a sair do mar e a escavacar prédios enquanto passeava nas ruas de NY.
Os meus olhos já bem afastados das órbitas levavam ao cérebro a mensagem: "A gorda vai sentar-se ao meu lado! A gorda vai sentar-se ao meu lado! A gorda vai sentar-se ao meu lado!"
Que fique claro, eu não tenho nada contra gordos. Como diz alguém que muito admiro: "um gordo é alguém que está sempre feliz"
Tudo muito bem. Empiricamente diria o mesmo. Não me lembro de nenhum gordo carrancudo ou mal disposto por natureza e para ser sincero, sempre gostei mais do Obélix do que do Astérix. Mas que eu saiba, o Obélix nunca andou de expresso.
Não digo isto por mal, mas os lugares num autocarro têm uma dimensão física finita. Rabos de 1x1m simplesmente não deveriam ser permitidos nas redondezas.
A moça sentou-se e ajeitou-se. Isto foi processo para uns bons 10 minutos. Ajeitar as carnes, recolher o excedente que caía para o lado do chão e colocar debaixo do rabo parte das bogas que fugiam para cima de mim. Foi como encaixar o Dumbo na gaiola do Tweety.
Eram 6.45h da manhã e eu parecia um pega-monstro colado ao vidro, respirando naqueles 20 cm que me restaram depois dela espalhar todo o seu ser.
80 Km com os ossos sobrepostos, numa viagem em tudo semelhante a um Lisboa-Caldas pela N10, mas respeitando os limites de velocidade (que agonia!!).
Ao fim de 50 Km o grito de revolta. Virei-me de lado e encaixei metade de mim numa massa esponjosa. Era a gorda ali tão perto!
Contudo, a outra metade de mim ficou com algum espaço para se mexer, coçar, respirar e todos os restantes "ar" indispensáveis para quem vai mais de 1h na mesma posição. A gorda ficou chateada, mas os meus ossos agradeceram.
Já no destino a vingança apareceu. Com a calma e tempo necessários levantou-se para sair e neste movimento soltou algumas das abas presas debaixo de si. Eu, que estava distraído e envolvido no milagre da chegada, levei uma valente sapatada, como se uma raia gigante ali tivesse passado e voltei de imediato para as imediações do vidro. Colado. Bem coladinho.
Mais de 1m de raio, deveria dar direito a viajar no porão ou então no tejadilho preso com elásticos.
Agora o Obélix é que era! Simpático e bonacheirão. "Forte, não gordo!", dizia ele.
Transportes públicos é que nunca gostei.